Brasília — A tentativa do senador Flávio Bolsonaro de intervir e reverter o chamado “tarifaço” aplicado pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos de diversos países, incluindo o Brasil, acabou gerando efeitos contrários ao esperado — o que analistas classificam como uma decisão que “deu tiro no pé”.
A medida adotada pela administração de Donald Trump, na época em que ocupava a Presidência norte-americana, elevou as taxas de importação sobre itens como aço, alumínio, alimentos processados e matérias-primas. O objetivo declarado era proteger a indústria local e reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro, na época atuando como representante político alinhado às pautas do governo federal, assumiu a tarefa de negociar uma isenção ou redução dessas tarifas. Para isso, defendeu publicamente aproximações estratégicas e propôs contrapartidas que, segundo críticos, não foram bem avaliadas tecnicamente.
O que deu errado?
Ao tentar reverter a medida de forma direta e sem alinhamento prévio com os setores produtivos brasileiros e com o corpo diplomático oficial, o senador acabou levantando suspeitas sobre a posição comercial do Brasil. Especialistas em comércio exterior explicam que, nesse tipo de negociação, é preciso apresentar dados consistentes e vantagens mútuas — algo que não ficou claro na sua articulação.
Como resultado, não apenas a tarifa se manteve, como também foram incluídos novos produtos na lista de taxações pouco tempo depois. “Foi uma jogada que saiu pela culatra. Em vez de abrir espaço para diálogo, acabou reforçando a visão de que o Brasil não tinha uma estratégia sólida”, avalia um economista especializado em relações internacionais, sob condição de anonimato.
Repercussão política e econômica
No âmbito político, a tentativa gerou críticas até mesmo entre aliados. O argumento é que a negociação deveria ter sido conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores e pela equipe econômica, com base em estudos técnicos, e não por iniciativas individuais. Para o setor produtivo, a manutenção das tarifas significou custos mais altos para exportadores e menor competitividade no mercado norte-americano.
Analistas lembram que casos como esse mostram a importância de alinhar discurso e ação nas relações internacionais. “Quando uma iniciativa não tem respaldo técnico ou institucional, o risco de dar errado é muito maior — e o prejuízo acaba sendo para o país todo”, conclui o especialista.
Até o momento, as tarifas seguem vigentes para os produtos brasileiros listados, e novas rodadas de negociação seguem em andamento, agora sob a coordenação oficial do governo federal.
Fonte The Intercept Brasil