Registros bancários detalham transferências de Vorcaro para custear filme sobre Bolsonaro nos Estados Unidos
Publicado em: 28 de junho de 2026 | Redação – Brasil Investigação
Documentos inéditos — planilhas de controle financeiro e comprovantes de transferência internacional — obtidos por veículos de investigação mostram com precisão o caminho do dinheiro enviado pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para os Estados Unidos, com o objetivo de custear “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os registros confirmam o valor negociado, a rota dos recursos e o destino final: um fundo ligado a aliados da família Bolsonaro no Texas.
O que os documentos revelam
A principal prova é uma planilha interna intitulada “Funding Schedule”, que funciona como cronograma oficial de pagamentos. Ela previa um total de US$ 23,9 milhões (cerca de R$ 134 milhões) a serem liberados em 14 parcelas entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Até o momento, os registros confirmam que US$ 10,6 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões) já foram efetivamente transferidos.
Junto à planilha, foi divulgado um comprovante SWIFT, de 13 de fevereiro de 2025, referente à primeira remessa: US$ 2 milhões enviados pela empresa Entre Investimentos e Participações, ligada ao grupo de Vorcaro, processada pelo Banco BS2 e depositada na conta do Havengate Development Fund LP, no banco JPMorgan Chase, nos EUA.
Esse fundo tem sede no Texas e é controlado por Paulo Calixto, advogado que também atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro — que mora no estado americano.
O roteiro do dinheiro
Os dados permitem reconstruir passo a passo a operação:
✅ Origem: Recursos vinculados ao Banco Master e empresas controladas por Vorcaro;
✅ Intermediário: Entre Investimentos e Participações, responsável por operacionalizar as remessas internacionais;
✅ Caminho: Processamento via instituições financeiras no Brasil e sistema internacional SWIFT;
✅ Destino: Havengate Development Fund LP, usado como estrutura de recebimento dos valores para a produção do filme.
Mensagens trocadas entre Vorcaro e intermediários mostram pressa para cumprir o cronograma: em agosto de 2025, o banqueiro foi alertado sobre parcelas atrasadas e respondeu: “Segunda fazemos duas”.
Contexto: o que é “Dark Horse”
A produção é descrita como cinebiografia de Jair Bolsonaro, orçada para ser uma das mais caras da história do cinema brasileiro. A negociação do financiamento foi conduzida diretamente com o senador Flávio Bolsonaro, que em mensagens cobrou repetidamente a liberação das parcelas para não interromper as filmagens.
Investigadores do Ministério Público e da Polícia Federal analisam se a operação configura pagamento de vantagem indevida, lavagem de dinheiro ou uso de estrutura offshore para ocultar origem e destino de valores.
Reações e versões
- Daniel Vorcaro: Afirma que se tratou de investimento comercial, com contrato formal e previsão de retorno financeiro, sem qualquer vínculo político ou ilegal.
- Flávio e Eduardo Bolsonaro: Negam irregularidades. Flávio diz que intermediou apenas a negociação com a produtora; Eduardo alega não ter controle sobre o fundo Havengate e não ter recebido valores pessoalmente.
- Equipe de investigação: A PF já solicitou informações às instituições bancárias e ao governo americano para confirmar a finalidade real dos recursos e verificar se houve quebra de regras cambiais ou de transparência.
O que está em jogo
Além de explicar a origem dos recursos para o filme, a documentação expõe a ligação estreita entre o ex-banqueiro e a família Bolsonaro, justamente em um momento em que Vorcaro já é alvo de inquéritos por fraudes bilionárias no Banco Master.
Para analistas, o caso levanta duas questões centrais: por que usar uma estrutura nos EUA, em vez de contratar diretamente no Brasil? E se o financiamento é lícito, por que a operação foi feita por etapas e com empresas intermediárias?
A apuração segue em segredo de justiça, mas os documentos já revelam um fluxo financeiro que, por enquanto, só tem uma versão oficial: a de que foi feito para bancar uma produção cinematográfica.
Matéria baseada em documentos divulgados pelo The Intercept Brasil, relatórios de investigação, comprovantes bancários e declarações das partes envolvidas.
Fonte - The Intercpt Brasil