Em 7 estados e no DF: ONG ligada à ‘Dark Horse’ desviou verbas do Sesi, diz CGU

 

Relatório de auditoria revela que recursos do Sesi foram desviados por organização vinculada à empresa responsável pela produção da marca “Dark Horse”

A organização não governamental Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidida por Karina Ferreira da Gama, funcionou como uma entidade de fachada para desviar verbas do chamado Sistema S, conforme conclusões de auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU). Entre os anos de 2017 e 2018, o Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (CN-Sesi) repassou aproximadamente R$ 11 milhões ao instituto para a realização de dois projetos: a Feira da Cidadania, desenvolvida em sete estados, e o evento Fórmula Truck Kids, realizado no Distrito Federal.
Os levantamentos da CGU mostram que, desse valor total, ao menos R$ 2,4 milhões foram pagos acima do preço real dos serviços — o que caracteriza superfaturamento. Os números revelam um esquema de desvio organizado e sistemático:
  • No Pará, o valor pago a mais comprovado ultrapassou R$ 1,3 milhão;
  • No Rio Grande do Norte, o prejuízo com o sobrepreço chegou a R$ 880 mil;
  • No Piauí, a margem de lucro inflada atingiu o percentual de 748%, muito acima do que seria considerado normal;
  • No Distrito Federal, dos R$ 350 mil recebidos para o Fórmula Truck Kids, apenas R$ 80 mil foram efetivamente usados no evento. O restante — R$ 270 mil — foi desviado, com o dinheiro passando primeiro por outra organização também considerada de fachada.

Recursos de origem pública


É importante destacar que esses valores não são verbas privadas. Como parte do Sistema S, o Sesi é mantido por contribuições obrigatórias pagas pela indústria, o que confere a esses recursos a natureza de dinheiro público federal. Por essa razão, a instituição está sujeita à fiscalização rigorosa da CGU, órgão que encontrou evidências claras de superfaturamento e uso de notas fiscais irregulares nas transações com o ICB.

As auditorias também revelaram que, embora a contratação de terceiros para executar atividades seja uma prática permitida por lei, o Instituto Conhecer Brasil não tinha estrutura para cumprir os contratos: não possuía funcionários registrados, capital social nem equipamentos próprios. O seu Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) servia apenas para assinar os acordos com o Sesi e repassar 100% do valor recebido para uma rede de empresas fantasmas, todas sediadas no Distrito Federal.


Ligação com a cinebiografia de Bolsonaro


A responsável pelo instituto, Karina Ferreira da Gama, também é proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Conforme reportagem do portal O Intercept Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na época pré-candidato à Presidência, chegou a negociar com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o valor de R$ 134 milhões para financiar a produção do longa-metragem.

Ela também é alvo de investigação da Polícia Civil do Estado de São Paulo, por conta da contratação firmada com a prefeitura da capital paulista, no valor de R$ 108 milhões, para implantação de sinal de internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda. Conforme apurações da polícia, parte dos serviços previstos no acordo não foi executada, e os valores cobrados ficaram muito acima dos preços praticados no mercado.

Além disso, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina, transferiu R$ 700 mil provenientes de uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão, indicada pelo deputado Mario Frias (PL-SP), para um empresário já denunciado por fraudes e também para uma funcionária de uma empresa ligada a ele.

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