Documentos e mensagens apreendidas pela PF revelam ordem para levantar dados pessoais, profissionais e até detalhes da rotina da repórter; ação faz parte da mesma operação que apura pedido contra presidente do Itaú.
Rio de Janeiro, 10 de julho de 2026 — Trocas de mensagens e materiais apreendidos na 10ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, trazem à tona um novo alvo de ações de monitoramento e levantamento de dados: a jornalista Malu Gaspar, repórter especial com cobertura frequente sobre o sistema financeiro e temas ligados ao universo político.
Registros obtidos pelas autoridades mostram que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o publicitário Thiago Miranda — mesmo empresário ligado ao círculo de Flávio Bolsonaro citado em investigações anteriores — organizaram uma tentativa de “vasculhar” a vida profissional e pessoal da repórter.
Em uma das conversas, Vorcaro escreve diretamente a Miranda: “Essa Malu Gaspar está incomodando muito. Preciso calar essa mulher, a qualquer custo. Quero tudo o que puder encontrar sobre ela, sua família, contratos e quem são seus contatos mais próximos”. O publicitário respondeu confirmando a solicitação e informou que já havia acionado uma equipe para iniciar o levantamento.
Conteúdo do material encontrado
Entre os arquivos apreendidos pela PF, há um dossiê preliminar organizado pela empresa vinculada a Thiago Miranda, com dados como endereços residenciais, números de telefone, histórico de reportagens publicadas, perfis em redes sociais e até anotações sobre possíveis fontes de informação da jornalista. O documento, que não continha dados fiscais ou bancários sigilosos até o momento do levantamento, trazia a marcação “prioridade” e data para conclusão em menos de 15 dias.
Os investigadores destacam que a ação se encaixa no mesmo padrão identificado no pedido anterior: a tentativa de obter informações privadas para pressionar pessoas consideradas “inconvenientes” ou que representavam algum risco aos interesses de Vorcaro e seus aliados.
Contexto das investigações
O episódio é mais um desdobramento das apurações que levaram à prisão preventiva de Daniel Vorcaro, no final de 2025. Ele é investigado por liderar um esquema de fraudes que teria causado um rombo de cerca de R$ 47 bilhões, resultando na liquidação do Banco Master. Além disso, já havia sido revelado que ele solicitou dados pessoais de Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco, também por meio de Thiago Miranda.
Malu Gaspar é conhecida por reportagens que revelaram detalhes sobre a situação do Banco Master, relações entre instituições financeiras e grupos políticos, além de denúncias sobre possíveis desvios de recursos. Em nota enviada à imprensa, a jornalista afirmou: “Recebo com naturalidade a confirmação de que ações desse tipo existem, pois já havia percebido movimentos estranhos ao longo da cobertura. Confio no trabalho da Polícia Federal e reafirmo meu compromisso com o jornalismo independente”.
Reações e próximos passos
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiu nota oficial repudiando a tentativa de intimidação. “Levantar dados pessoais de profissionais da comunicação com o objetivo de calá-los é uma prática ilegal e antidemocrática, que ataca diretamente a liberdade de imprensa”, diz o comunicado.
A defesa de Daniel Vorcaro ainda não se manifestou especificamente sobre esse caso. Thiago Miranda, por sua vez, disse por meio de seus advogados que “não houve qualquer intenção de agir de forma ilícita” e que “os materiais citados ainda serão analisados para que possam ser apresentados os devidos esclarecimentos”.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) já incluiu esse episódio no rol de condutas investigadas e estuda pedir novas medidas cautelares, além de verificar se houve acesso indevido a bases de dados protegidas por lei.
Matéria baseada em informações oficiais da Polícia Federal e despachos judiciais. As investigações estão em andamento e os fatos apontados dependem de análise final das autoridades. Fonte - O Globo