Thiago Miranda não só aproximou o senador do ex-controlador do Banco Master, como também intermediou o patrocínio milionário ao filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro
Rio de Janeiro, 10 de julho de 2026 — Novos documentos obtidos pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero revelam detalhes cruciais sobre a origem da relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Quem fez a ponte direta entre os dois foi Thiago Miranda, publicitário hoje também alvo das investigações, responsável por aproximar os nomes e viabilizar acordos que envolveram valores milionários.
De acordo com trocas de mensagens e contratos apreendidos, Miranda agiu como elo principal: primeiro, apresentou Vorcaro ao círculo próximo do senador; depois, intermediou pessoalmente o repasse de recursos do banqueiro para a produção do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como se deu a aproximação
Os registros mostram que o contato começou no final de 2024, quando Flávio Bolsonaro buscava parceiros dispostos a investir na realização do documentário. Thiago Miranda, que já trabalhava com campanhas e ações de comunicação ligadas à família Bolsonaro, indicou Daniel Vorcaro como uma possibilidade. Em conversa gravada, o publicitário chega a dizer: “Ele tem condições e interesse em ajudar projetos alinhados com a nossa linha”.
Após a apresentação, os encontros passaram a ser frequentes. A partir do início de 2025, já havia tratativas concretas para a destinação de valores ao filme.
Intermediação do patrocínio milionário
Conforme consta nos autos, foi Thiago Miranda quem negociou diretamente com Vorcaro o montante que seria destinado à produção: cerca de R$ 61 milhões. Os valores foram repassados em parcelas, por meio de empresas e contas indicadas pelo próprio publicitário, segundo o levantamento da PF.
A operação não passou despercebida. Para os investigadores, o patrocínio faz parte de uma lógica de troca de favores: em troca do investimento, Vorcaro contaria com respaldo político para suas operações no mercado financeiro, num momento em que o Banco Master já enfrentava sinais de instabilidade e fiscalização mais rigorosa do Banco Central.
Em nota anterior, Flávio Bolsonaro classificou o repasse como “patrocínio privado legal e documentado”, sem irregularidades. Já a defesa de Vorcaro afirmou que os valores correspondiam a uma parceria comercial legítima, sem vínculo com interesses ilícitos.
O mesmo elo em outras ações investigadas.
Os dados revelam ainda que Thiago Miranda não participou apenas da aproximação e do patrocínio: ele é a mesma pessoa a quem Vorcaro recorreu para solicitar levantamentos de dados pessoais e dossiês contra pessoas consideradas “inconvenientes”. Conforme já apurado pela PF, o publicitário foi o destinatário dos pedidos para vasculhar informações sobre o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, e sobre a jornalista Malu Gaspar, com a ordem expressa de “calá-la”.
Para a Procuradoria-Geral da República, essas ações mostram que Miranda atuava como uma espécie de operador, ligando interesses políticos e financeiros e colocando em prática solicitações que vão desde acordos comerciais até ações de monitoramento e intimidação.
Situação atual dos envolvidos.
Daniel Vorcaro segue preso preventivamente, investigado por fraudes bilionárias, formação de organização criminosa e violação de dados. Thiago Miranda responde ao processo em liberdade, mas teve seus bens bloqueados e segue sob investigação por intermediação de recursos, possível lavagem de dinheiro e participação nas ações de levantamento irregular de informações.
Flávio Bolsonaro não é alvo de medidas restritivas até o momento, mas seu nome aparece recorrentemente nos autos como parte do contexto em que os acordos foram fechados. A PGR segue analisando todos os documentos para verificar se houve abuso de poder, conflito de interesses ou favorecimento indevido.
Matéria baseada em documentos oficiais da Polícia Federal e despachos judiciais. As investigações continuam em andamento e os fatos apontados ainda estão sob análise da Justiça.