Operação da Polícia Federal revela esquema que envolve rombo bilionário, tentativas de monitoramento irregular e ligações diretas com o círculo do senador
Rio de Janeiro, 10 de julho de 2026 — O que começou como uma investigação sobre um rombo financeiro bilionário no Banco Master se transformou em um dos casos mais complexos e amplos dos últimos anos, ligando suspeitas de fraude, vazamento indevido de dados, tentativa de intimidação e relações próximas com lideranças políticas. No centro do escândalo está Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e suas conexões com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pessoas de seu círculo mais próximo.
Deflagrada inicialmente em 2025, a Operação Compliance Zero já chegou à sua 10ª fase, com buscas, apreensões e prisões que revelam como interesses financeiros e políticos se cruzaram para além das atividades legais do mercado.
O rombo que levou o banco à liquidação
O ponto inicial das apurações é o colapso do Banco Master, encerrado oficialmente em novembro de 2025 por determinação do Banco Central. Segundo as investigações, a instituição teria sido usada por Vorcaro e seus sócios para operar esquemas de empréstimos irregulares, negociação de títulos de crédito falsos e desvio de recursos, causando um prejuízo estimado em R$ 47 bilhões. O valor foi em grande parte coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), ou seja, com recursos que protegem a economia de poupadores e investidores.
Ligação direta com Flávio Bolsonaro
As provas coletadas mostram que a relação entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro não era apenas comercial. Em trocas de mensagens e contratos apreendidos, a Polícia Federal identificou que o banqueiro chegou a negociar repasses de cerca de R$ 61 milhões para financiar a produção do filme “Cavaleiro Solitário”, documentário biográfico sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro — a pedido direto de Flávio.
Inicialmente, o senador negou qualquer contato com Vorcaro, mas depois admitiu a aproximação, classificando os valores como “patrocínio privado regular”. Para os investigadores, porém, o acordo faz parte de uma rede de troca de favores entre o grupo político e o empresário.
Tentativas de intimidação e levantamento irregular de dados
Os desdobramentos mais recentes trouxeram à tona um aspecto ainda mais grave: a tentativa de pressionar e monitorar pessoas que consideravam um risco aos seus interesses. Por meio de Thiago Miranda, publicitário ligado diretamente a Flávio Bolsonaro e também alvo da operação, Vorcaro pediu que fossem feitos levantamentos detalhados de informações privadas:
- Contra Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco: em mensagem, Vorcaro escreveu: “Está me causando muito problema. Preciso de tudo sobre ele”, solicitando dados pessoais, bens e situação fiscal.
- Contra Malu Gaspar, jornalista especializada em economia e política: a ordem foi ainda mais explícita: “Essa mulher está incomodando muito. Preciso calá-la, a qualquer custo”, com pedido para levantar endereços, contatos, fontes de trabalho e detalhes da rotina da repórter.
Em ambos os casos, Miranda respondeu confirmando a solicitação e chegou a organizar dossiês com dados coletados de forma suspeita, sem autorização legal.
Repercussões e próximos passos
O caso provocou reações de entidades de defesa da liberdade de imprensa, da sociedade civil e de instituições financeiras. A Abraji classificou as ações contra a jornalista como “ataque direto à democracia e ao direito da população à informação”. O Itaú Unibanco informou estar à disposição das autoridades, e a própria Malu Gaspar afirmou que confia nas investigações para responsabilizar os envolvidos.
Daniel Vorcaro segue preso preventivamente, enquanto Thiago Miranda responde ao processo em liberdade provisória. A defesa de ambos nega qualquer irregularidade e afirma que as condutas citadas estão sendo distorcidas. Já Flávio Bolsonaro não é alvo de prisão até o momento, mas é citado nos autos como parte do círculo investigado.
A Procuradoria-Geral da República avalia indícios de crimes como fraude contra o sistema financeiro, associação criminosa, violação de privacidade, acesso indevido a dados e tentativa de intimidação. Novas fases da operação já estão previstas para os próximos meses.
Matéria baseada em documentos oficiais da Polícia Federal, despachos judiciais e declarações das partes. As investigações seguem em andamento, e os fatos apontados dependem de análise final da Justiça.
Fonte - Estadão