Ação cumpre mandados contra empresas e pessoas físicas; Edir Macedo está entre os investigados, e Justiça determina bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens.
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (23), a Operação Miragem, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras envolvendo a gestão do Banco Digimais. A ação tem como objetivo apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça Federal de São Paulo, em endereços ligados a 10 empresas e oito pessoas físicas. Entre os investigados está o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e proprietário do Banco Digimais.
De acordo com a Polícia Federal, não foi expedido mandado de busca contra Edir Macedo porque ele reside no exterior. O banco, que teve origem em 1981 como Banco Renner, passou a atuar como instituição digital em 2020, após ser adquirido integralmente pelo líder religioso.
As investigações apontam que o grupo teria manipulado demonstrações financeiras da instituição, supervalorizado ativos e criado receitas artificiais para mascarar a real situação econômica do banco.
A Justiça também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além do bloqueio e sequestro de bens e valores que podem chegar a R$ 670,3 milhões.
Segundo a Polícia Federal, relatórios do Banco Central identificaram indícios de graves irregularidades na administração do Banco Digimais. Os investigados poderão responder, conforme o grau de participação de cada um, pelos crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, inserção de informações falsas em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito proibidas, previstos na Lei nº 7.492/1986.
Em nota, o Banco Digimais informou que está à disposição das autoridades e reafirmou seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a colaboração com as investigações.
A defesa do bispo Edir Macedo declarou que ainda não teve acesso aos autos do processo e, por esse motivo, não irá se manifestar sobre o caso.
Também citada na operação, a corretora ID CTVM informou que segue rigorosos padrões de governança e afirmou que prestará todos os esclarecimentos necessários às autoridades, ressaltando a regularidade de suas operações.
Entenda a investigação
As investigações da Polícia Federal apontam que o grupo teria adotado um esquema de manipulação de demonstrações financeiras para esconder a real situação econômica do Banco Digimais e transmitir aos órgãos reguladores uma imagem de solidez da instituição.
De acordo com os investigadores, as irregularidades incluíam a superavaliação de ativos e a criação de receitas sem respaldo econômico, o que teria inflado os resultados contábeis em valores que somam centenas de milhões de reais.
A Polícia Federal afirma ainda que o banco teria realizado operações financeiras classificadas como temerárias, em um modelo semelhante ao identificado no extinto Banco Master.
Criado em 1981, em Porto Alegre (RS), o Banco Digimais iniciou suas atividades com o nome de Banco Renner. A instituição começou operando como financeira e, nos anos seguintes, ampliou sua atuação para o crédito direto ao consumidor (CDC), especialmente no financiamento de veículos.
Em 1991, passou a funcionar como banco múltiplo, ampliando sua oferta de produtos e serviços financeiros. Em 2009, o empresário e líder religioso Edir Macedo ingressou na instituição como acionista minoritário.
O processo de modernização teve início em 2018, quando o banco investiu na transformação digital. Dois anos depois, em 2020, adotou a marca Digimais e passou a operar como banco digital. No mesmo período, Edir Macedo adquiriu a totalidade das ações e assumiu o controle da instituição.
Atualmente, o Digimais mantém como principal foco a concessão de crédito, sobretudo para o financiamento de veículos, além de disponibilizar produtos financeiros destinados ao varejo, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e fundos de investimento distribuídos por instituições parceiras.
Nos últimos anos, o banco também passou por mudanças em sua estrutura societária. Em janeiro de 2025, uma negociação para a venda do controle ao empresário Maurício Quadrado, do grupo BlueBank, chegou a receber aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas acabou não sendo concluída após o comprador desistir da operação, citando a deterioração das condições de mercado.
Já em janeiro de 2026, Aldemir Bendine foi homologado pelo Banco Central e assumiu a presidência executiva (CEO) do Digimais. Poucos meses depois, em abril, o BTG Pactual anunciou a assinatura de um acordo vinculante para a aquisição do controle acionário da instituição.
O valor da transação não foi informado. A conclusão do negócio, no entanto, continua condicionada à realização de um processo competitivo, à confirmação da proposta do BTG Pactual como vencedora e à aprovação dos órgãos reguladores, entre eles o Banco Central e o Cade.
Enquanto as negociações seguem em andamento, o Digimais enfrenta desafios relacionados à sua situação financeira e à governança corporativa. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito do banco para "CCC(bra)", categoria que indica elevado risco de crédito e sinaliza uma capacidade reduzida de enfrentar dificuldades financeiras caso o cenário se deteriore.
Fonte da matéria O Globo do G1