Segundo as fontes do jornalismo investigativo do The Intecept Brasil. O Brasil ainda é uma das maiores democracias do mundo. Mas isso pode mudar caso Flávio Bolsonaro seja eleito este mês. Para entender o que está em jogo, precisamos entender o que a família Bolsonaro representa.
Flávio é o mais velho dos quatro filhos de Jair Bolsonaro. Ex-capitão do Exército, Jair foi um deputado de extrema direita sem importância por décadas, até ser eleito em 2018 em meio à crise de confiança no sistema político brasileiro. Durante seu governo, o Brasil perdeu dezenas de milhares de vidas para a Covid-19, como resultado direto de sua gestão, e a Amazônia perdeu dezenas de milhões de árvores.
Depois que Bolsonaro foi derrotado por Lula nas eleições de 2022, os bolsonaristas nas forças armadas tentaram assassinar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O então presidente e seus aliados tentaram organizar um golpe de estado. Eles apoiaram as multidões que atacaram a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, com o objetivo de criar as condições para uma intervenção militar. Jair Bolsonaro foi preso em 2025, juntamente com os demais golpistas de seu governo, e atualmente está em prisão domiciliar. Mesmo que sua condenação tenha reduzido seu alcance político, mais de um terço dos brasileiros considera que não houve tentativa de golpe, e seus apoiadores acreditam que ele é vítima de perseguição política. Flávio Bolsonaro, senador pelo estado do Rio de Janeiro, prometeu reproduzir as políticas econômicas do argentino Javier Milei e as forças de segurança do salvadorenho Nayib Bukele. Ele se sujeitaria completamente a Donald Trump, e tentaria libertar seu pai da prisão. Mas propostas concretas não são o cerne da sua campanha, e muitos dos apoiadores de Flávio se sentem representados pela defesa do legado de seu pai, uma preocupação com os “valores familiares” e o uso de um discurso populista de lei e ordem.
Enquanto esteve na presidência, Jair Bolsonaro na verdade não tornou o país mais seguro, mas os bolsonaristas acreditam que Flávio vai tentar; se ele vencer, poderá pressionar para classificar as facções criminosas como organizações terroristas internacionais e expandir a população carcerária. A cobertura recente tem se concentrado no seu envolvimento com o Banco Master, já liquidado, que praticou uma das maiores fraudes da história brasileira. Esse escândalo de corrupção tem um impacto institucional único: pelo menos cinco integrantes do STF, entre os dez atuais, estão ligados a ele de alguma forma. O tribunal poderia ser enfraquecido, ou até extinto, pelo avanço do caso.
A ligação de Flávio com o caso, o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, não prejudicou seus números nas pesquisas. Parece que a corrida presidencial pode ter qualquer resultado. Será uma batalha entre quem tem menor rejeição: aproximadamente 47% do eleitorado rejeita Lula, e 47% rejeitam Flávio.
Mas o que mais assusta os eleitores indecisos é o vínculo histórico entre Flávio e as milícias, grupos do crime organizado constituídos por policiais e ex-policiais. As milícias controlam serviços essenciais nas favelas e áreas pobres do Rio, e funcionam como um estado paralelo, que extorque a população e ameaça de morte os moradores.
A vitória de Bolsonaro poderia levar os milicianos ao controle do país. Por muito tempo, devo acrescentar.Diante da crise no Supremo, Flávio poderia indicar ministros para formar maioria, libertar seu pai e manter sua família no poder por anos. Lula não terá condições de concorrer novamente após 2026, e o PT está enfrentando um declínio – atualmente, há poucos líderes que parecem capazes de enfrentar um presidente Flávio apoiado pelo STF.
Embora Donald Trump esteja perdendo apoio nos Estados Unidos, a eleição de Flávio significaria, na prática, a dominação total de Trump sobre a América do Sul; isso também reduziria a pó a soberania brasileira. Ao mesmo tempo, os brasileiros estariam representados em uma nova constelação de líderes globais de extrema direita. A internacional reacionária não ganharia apenas mais um integrante, mas sim, uma família inteira.
Este artigo foi publicado originalmente na North South Notes, a nova newsletter de Vincent Bevins, dedicada ao jornalismo investigativo de qualidade sobre questões globais.
Fonte The Intercpt Brasil