Flávio Bolsonaro e os EUA: terras raras em troca de apoio político?

 

Proposta de parceria estratégica reacende debate sobre soberania e regras eleitorais

Documento apresentado a grupo ligado ao vice-presidente Vance detalha parceria mineral; opositores acusam financiamento estrangeiro ilegal, proibido pela legislação brasileira

Um documento de 22 páginas, redigido em inglês e datado de 19 de março de 2026, colocou no centro da disputa presidencial uma das questões mais sensíveis da política nacional: a soberania sobre as riquezas minerais brasileiras e a possibilidade de recursos estrangeiros financiarem campanhas eleitorais — prática expressamente proibida pela lei brasileira.

Intitulado "Prosperity Partnership" (Parceria de Prosperidade), o material traz na capa a inscrição "Flávio Bolsonaro | Campanha 2026" e estampa a marca do senador e pré-candidato do Partido Liberal (PL) em todas as páginas. O texto foi elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo ao governo do Rio de Janeiro e aliado próximo de Flávio, que confirmou a autoria mas negou qualquer vínculo oficial com a campanha. 

Segundo revelou o portal Amado Mundo, de Guilherme Amado, o plano teria sido apresentado à Rockbridge Network, organização de financiadores conservadores dos Estados Unidos fundada pelo vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, e ligada ao círculo de Donald Trump.

O que prevê o plano

O memorando detalha uma parceria estratégica pela qual, em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, o Brasil se tornaria o principal fornecedor de terras raras e minerais críticos aos Estados Unidos, reduzindo a dependência norte-americana da China. 

A proposta prevê o beneficiamento local dos minerais e a criação de uma cadeia de suprimentos conjunta, em troca de apoio tecnológico e investimentos. O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, recurso essencial para a indústria de alta tecnologia, defesa e energias renováveis.

As acusações de financiamento estrangeiro

A revelação do documento coincidiu com denúncias públicas feitas pelo candidato à Presidência Renan Santos, do Partido Missão, segundo o qual a Rockbridge Network teria canalizado recursos para a campanha de Flávio Bolsonaro em troca de compromissos sobre a exploração de terras raras.
"Estou à disposição da imprensa com documentos e contatos de envolvidos, inclusive fora do Brasil, para ajudar a elucidar o envolvimento americano na campanha de Flávio em troca de TERRAS RARAS." — declarou Renan Santos em rede social.

A legislação eleitoral brasileira — Lei nº 9.504/1997 — proíbe expressamente que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, recursos de governos, empresas ou entidades estrangeiras. A prática pode resultar na cassação do registro de candidatura e até em processo criminal.

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitando investigação sobre supostos recursos estrangeiros na campanha. Até o momento, as acusações não foram formalmente comprovadas. Os envolvidos negam qualquer transferência de recursos. André Marinho afirmou que o documento "nunca foi mostrado a nenhum oficial americano e não tem relação com a campanha". A Rockbridge Network e os brasileiros ligados ao grupo também negaram irregularidades e ameaçaram processar por difamação.

O contexto da disputa

O debate se insere numa disputa mais ampla sobre o destino dos recursos minerais estratégicos do Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se posicionado contra a exportação de minério bruto, citando restrições legais, enquanto Flávio Bolsonaro tem defendido publicamente a aproximação com os Estados Unidos na área. Em março, durante evento da CPAC nos EUA, o senador declarou que "o Brasil é a solução para os Estados Unidos superarem a dependência chinesa" em minerais críticos. A declaração gerou reação do governo, que acusou o candidato de querer "vender o Brasil" a interesses estrangeiros.

O que está em jogo

  • Soberania nacional: a quem pertencem e sob quais regras serão explorados os recursos minerais estratégicos do país;
  • Integridade eleitoral: a lisura das fontes de financiamento de campanhas, com proibição legal de recursos estrangeiros;
  • Alinhamento geopolítico: se o Brasil manterá postura independente ou se alinhará explicitamente aos EUA em detrimento de outras parcerias.

Situação atual

Até o momento, não há provas públicas de que dinheiro tenha sido efetivamente repassado. O que se sabe é que:
✅ O documento existe, traz o nome e marca de Flávio Bolsonaro e foi apresentado a grupo americano;
✅ A lei brasileira proíbe financiamento externo de campanhas;
✅ As acusações foram apresentadas à Justiça, que ainda não se pronunciou;
✅ Todos os citados negam irregularidades.

A campanha de Flávio Bolsonaro declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aproximadamente R$ 48,17 milhões, sendo 95% provenientes do próprio partido. Não há registro oficial de doações estrangeiras. Caso se confirme o repasse não declarado, as consequências podem incluir a impugnação da candidatura e investigação criminal. O assunto segue sob escrutínio da Justiça Eleitoral e do Ministério Público.

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