News Nacional - Ricardo de Moura Perera
A desinformação de que Flávio Bolsonaro teria concluído uma pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não se limitou apenas aos perfis oficiais do senador na Alerj e no Senado. Documentos obtidos pela Fórum indicam que o currículo inexistente percorreu o país e foi utilizado até mesmo para justificar honrarias propostas a Flávio por parlamentares aliados.
A Fórum identificou menções à alegada formação na UFRJ em propostas de homenagem submetidas em Santo André (SP), Goiás e Espírito Santo. Nos casos de Santo André e Espírito Santo, a informação está contida no próprio projeto de lei que sugere a homenagem. Em Goiás, ela está presente tanto na justificativa original assinada pelo proponente quanto na página oficial da Assembleia Legislativa destinada à sua divulgação.
Logo, não se trata apenas de uma informação divulgada por terceiros em sites da internet. Em Santo André e Goiás, as propostas que mencionam Flávio como tendo passado pela UFRJ fazem parte das proposições apresentadas por parlamentares do PL, partido do senador. No Espírito Santo, a declaração consta de um projeto apresentado pelo deputado Alcântaro Filho (Republicanos), que manifestou apoio à candidatura presidencial de Flávio.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro declara que Flávio Nantes Bolsonaro não consta como aluno em seu Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga). Após a divulgação do caso, a campanha afirmou que as menções à formação seriam resultado de "erros ou equívocos" e sugeriu que a informação poderia ter sido obtida de sites como a Wikipédia. A nova pesquisa amplia a dimensão do problema: a mesma formação acadêmica ausente foi usada como justificativa para homenagear o senador em diversas assembleias legislativas estaduais e municipais.
Santo André: a falsa pós na UFRJ foi usada como justificativa para conceder título
Um exemplo claro disso pode ser encontrado na Câmara Municipal de Santo André, no ABC paulista.
O vereador Major Vitor Santos propôs um projeto em fevereiro de 2026 para atribuir a Flávio Bolsonaro o Título de Cidadão Honorário de Santo André. Uma seção específica da justificativa do documento é dedicada à formação acadêmica do senador.
Com o intertítulo “Formação e Reconhecimento”, o texto declara: "Com uma robusta formação acadêmica, possui Bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, especialização em Ciências Políticas pela UFRJ e formação técnica em Eletrônica."
Não se trata de uma referência lateral. O currículo figura precisamente na parte em que o autor lista as qualidades e distinções que, em sua opinião, justificariam a homenagem. Imediatamente após citar a UFRJ, o projeto enumera outras distinções já concedidas a Flávio e, por fim, solicita o apoio dos demais vereadores para a aprovação do título.
O projeto que atribui o título de Cidadão Honorário de Santo André a Flávio Bolsonaro declara que ele é “Pós-graduado em Ciências Políticas pela UFRJ”. Câmara Municipal de Santo André
O vereador Major Vitor Santos assinou o documento. O primeiro artigo da proposta estabelece que Flávio Nantes Bolsonaro receberá o Título de Cidadão Honorário da Câmara, e prevê a realização de uma sessão solene para a entrega da honraria. A página é particularmente relevante, pois compila em um único documento três componentes: a homenagem a Flávio, a afirmação de que ele estudou na UFRJ e a razão para a concessão do título.
Goiás: falsidade surge na justificativa assinada por Major Araújo.
Em Goiás, a documentação também é simples. Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o deputado estadual Major Araújo (PL) propôs um projeto para atribuir a Flávio Bolsonaro o Título Honorífico de Cidadão Goiano. A proposta está em tramitação no processo nº 8303/2026 e foi registrada como Projeto de Lei de Título de Cidadão nº 97/2026.
Na primeira página, o texto determina:
“Fica concedido ao SENADOR FLÁVIO NANTES BOLSONARO o Título Honorífico de Cidadão Goiano.”
Na próxima página, encontra-se a justificativa assinada pelo parlamentar do PL. É exatamente nesse ponto que surge a formação ausente:
"É graduado em Direito pela Universidade Cândido Mendes e possui especializações em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e em Empreendedorismo pela Fundação Getúlio Vargas."
Assim, a informação não foi incluída por um veículo de imprensa ao divulgar a proposta. Ela figura na peça original do processo legislativo, proposta por Major Araújo, a qual é identificada no próprio documento como “Deputado Estadual do PL”.
Assim, a informação não foi incluída por um veículo de imprensa ao divulgar a proposta. Ela figura na peça original do processo legislativo, proposta por Major Araújo, a qual é identificada no próprio documento como “Deputado Estadual do PL”. A justificativa do projeto de Major Araújo (PL), que concede cidadania goiana a Flávio Bolsonaro, menciona que o senador possui uma especialização em
Ciência Política pela UFRJ. Reprodução/Alego
Em 18 de maio, a Agência Assembleia de Notícias divulgou a mesma biografia ao informar que Major Araújo havia protocolado a cidadania para Flávio. A página oficial reitera que o senador tem especialização em Ciência Política pela UFRJ.
A homenagem prosseguiu até a conclusão do processo. O sistema oficial da Alego documenta a aprovação em discussão e votação única nominal no dia 17 de junho. Em 25 de junho, o processo foi enviado para arquivamento com a descrição “Projeto de Lei Aprovado e Sancionado”.
Espírito Santo: projeto de cidadania repete a mesma UFRJ
Meses antes, a biografia foi apresentada à Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales).
O deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo n.º 158/2025 no dia 9 de dezembro de 2025. O procedimento formal da Assembleia designa Flávio Nantes Bolsonaro como o homenageado e Alcântaro Filho como o proponente da proposição.
O projeto tem como finalidade outorgar a Flávio o título de Cidadão Espírito-Santense.
Na justificativa, ao expor o percurso do homenageado, o documento retoma a concessão da formação universitária ao senador:
"Flávio Bolsonaro possui graduação em direito pela Universidade Candido Mendes e finalizou especializações em ciências políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro..."
Novamente, a informação não consta de uma reportagem sobre Flávio. Ela está incluída no documento legislativo elaborado especificamente para atribuir uma honraria ao senador. O projeto encontra-se registrado no sistema da Assembleia capixaba, no processo de número 29016/2025 e no protocolo de número 31958.
Alcântaro Filho não é membro do PL, porém faz parte do grupo político que se alinhou à candidatura de Flávio. Em uma publicação subsequente, o deputado manifestou seu apoio ao senador na corrida presidencial.
UFRJ: Flávio não consta como aluno registrado
A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por outro lado, afirma que o senador nunca estudou lá.
De acordo com a resposta da universidade, divulgada após a descoberta da inconsistência, não há registro de Flávio Nantes Bolsonaro como estudante da UFRJ no Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga).
A assessoria do senador confirmou que sua formação acadêmica é diferente: ele obteve seu diploma de graduação em Direito na Universidade Cândido Mendes, fez pós-graduação em Políticas Públicas no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo na Fundação Getulio Vargas.
Em outras palavras, nenhuma das três formações confirmadas corresponde à especialização em Ciência Política na UFRJ mencionada nos documentos das honrarias.
A campanha menciona "erro ou equívoco" e faz referência à Wikipédia.
Depois que a universidade desmentiu as informações, a campanha de Flávio Bolsonaro declarou que as informações divergentes eram fruto de "erro ou equívoco" e que poderiam ter sido extraídas de sites como a
Wikipédia. Além disso, a equipe comunicou que havia solicitado ajustes.
No entanto, a explicação não esclarece como a formação inexistente resultou em tantos registros institucionais — e, agora, também em projetos de homenagens propostos por aliados em vários estados.
Em Santo André, a suposta pós-graduação figura na justificativa assinada por um vereador do PL. Em Goiás, faz parte da justificativa original de Major Araújo e foi reencaminhada pela agência oficial da Assembleia. No Espírito Santo, a UFRJ foi incluída na biografia apresentada em um projeto de decreto legislativo para conceder a Flávio a cidadania espírito-santense.
Os documentos, por si só, não possibilitam determinar quem enviou o currículo a cada um dos gabinetes, nem comprovam que Flávio Bolsonaro tenha analisado os textos pessoalmente antes de sua apresentação.
Porém, evidenciam algo concreto: um diploma acadêmico que a UFRJ alega não existir foi reproduzido em documentos oficiais elaborados para homenagear Flávio Bolsonaro e utilizado como um fator de valorização de sua carreira.
E isso não aconteceu apenas uma vez, mas em três Legislativos distintos, em três estados, por meio de propostas de parlamentares que tinham afinidade política com o senador.