News Nacional - Ricardo de Moura Pereira
São Paulo, 17 de agosto de 2026 — Em uma declaração que surpreendeu o mercado, o presidente-executivo do Grupo Casas Bahia, Renato Franklin, afirmou nesta segunda-feira que 2027 será um ano ainda mais difícil do que 2026, em conferência com analistas realizada apenas 24 horas após a empresa protocolar seu pedido de recuperação judicial.
O pedido de recuperação
Na noite de domingo (16), a varejista — uma das mais tradicionais do Brasil — recorreu à Justiça de São Paulo, na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, com dívidas declaradas de **R$ 17,3 bilhões**, envolvendo dez empresas do grupo, entre elas as marcas Casas Bahia, Ponto Frio e Extra.com. Do total, R$ 16,4 bilhões correspondem a créditos sem garantia.
A medida veio acompanhada do anúncio do fechamento de 298 lojas, cerca de 30% da rede física. Segundo Franklin, os encerramentos foram feitos de uma só vez, em "onda única", para eliminar unidades deficitárias e evitar novos ajustes sucessivos que gerassem insegurança. “Eliminamos todas as lojas que estavam na UTI”, disse o executivo.
A previsão de piora
Durante a teleconferência, o sinal mais preocupante veio da projeção para o próximo ano:
"Não trabalhamos com melhora no cenário macro. Consideramos que 2027 será pior que 2026."
A justificativa está no endividamento crescente das famílias. Na avaliação da empresa, estímulos que sustentaram o consumo em 2026 — como operações de crédito consignado — tendem a se transformar em um "passivo futuro", pressionando ainda mais a capacidade de compra e o mercado de crédito. Diante disso, a Casas Bahia já adotou critérios muito mais restritivos para conceder financiamento aos consumidores, mesmo que isso reduza o volume de vendas.
Os números que levaram à decisão
A situação financeira da varejista se agravou rapidamente: Prejuízo líquido no 2º trimestre de 2026: R$ 10,1 bilhões (sendo R$ 9,1 bilhões de efeitos contábeis não recorrentes)
- Dívida total declarada: R$ 17,3 bilhões
- Prejuízo acumulado no semestre: R$ 11,2 bilhões
- Último lucro registrado: 2º trimestre de 2024 — mesmo período em que a empresa havia entrado com recuperação extrajudicial, que agora se mostrou insuficiente.
A empresa também informou que busca captar R$ 1 bilhão em financiamento DIP (crédito com prioridade de pagamento durante a recuperação), com negociações avançadas junto a Bradesco e Banco do Brasil, para garantir liquidez operacional nos próximos meses. Os investimentos, por sua vez, deverão ser reduzidos em cerca de 40%.
Contexto e desafios do setor
A Casas Bahia não está sozinha nas dificuldades. O varejo nacional tem sido pressionado por juros elevados, endividamento das famílias em patamares altos, crédito mais caro e restrito, além de forte concorrência e mudanças no comportamento de compra. A combinação desses fatores levou a empresa a concluir que a reestruturação precisava ser profunda e antecipada — justamente porque o cenário econômico não dá sinais de alívio.
O plano de sobrevivência
A estratégia desenhada por Franklin considera explicitamente um cenário de piora em 2027:
- ✅ Fechamento concluído: 298 lojas deficitárias encerradas de uma só vez
- ✅ Crédito mais rigoroso: redução deliberada de financiamentos de risco
- ✅ Prioridade ao lucro, não ao volume: no comércio eletrônico, foco em vendas com margem positiva
- ✅ Redução de investimentos: cortes de aproximadamente 40%
- ✅ Busca por liquidez: financiamento DIP de R$ 1 bilhão e venda de ativos não essenciais
"Dimensionamos nosso plano considerando que 2027 será mais difícil. Se houver melhora, será um bônus. Mas não podemos planejar com base em esperanças", resume a mensagem transmitida aos analistas.