EUA e Rússia se Aproximam: O Fim da Ordem Liberal Global Está Próximo?


 News Nacional - Ricardo de Moura Pereira 

Em um cenário geopolítico cada vez mais complexo e fragmentado, a recente aproximação entre os Estados Unidos e a Rússia tem levantado questões profundas sobre o futuro da chamada "ordem mundial liberal". Desde o fim da Guerra Fria, essa ordem, baseada em instituições multilaterais, livre comércio e valores democráticos, tem sido a espinha dorsal do sistema internacional. No entanto, a reaproximação entre Washington e Moscou, duas potências com históricos antagonismos, sugere uma possível reconfiguração das alianças globais e, talvez, o declínio da hegemonia liberal.

O movimento em direção a uma relação mais pragmática entre os EUA e a Rússia ganhou força nos últimos meses, impulsionado por uma série de fatores, incluindo a necessidade de cooperação em questões globais urgentes, como a estabilidade no Oriente Médio, a crise climática e a contenção da influência chinesa. Enquanto os EUA buscam reduzir sua exposição em conflitos prolongados e focar em desafios domésticos, a Rússia, por sua vez, vê na reaproximação uma oportunidade para aliviar as sanções econômicas que têm pressionado sua economia.


Analistas apontam que essa mudança pode representar um afastamento dos princípios que sustentaram a ordem mundial liberal desde o pós-Segunda Guerra Mundial. "A aproximação entre EUA e Rússia reflete uma tendência maior de realpolitik, onde os interesses nacionais e a pragmática geopolítica se sobrepõem aos valores democráticos e às normas internacionais", explica Maria Ivanova, professora de Relações Internacionais na Universidade de Harvard.


Um dos momentos mais simbólicos dessa reaproximação foi o encontro entre o presidente americano, Joe Biden, e o líder russo, Vladimir Putin, em Genebra, em junho de 2023. Embora o encontro tenha sido marcado por discordâncias públicas sobre direitos humanos e interferência eleitoral, os dois líderes concordaram em estabelecer diálogos estratégicos sobre controle de armas nucleares e estabilidade cibernética. Para muitos, esse pragmatismo sinaliza uma mudança de prioridades, onde a competição ideológica dá lugar à cooperação em áreas de interesse mútuo.


No entanto, a reaproximação entre EUA e Rússia não ocorre sem críticas. Aliados europeus, em particular, expressaram preocupação com o possível enfraquecimento da OTAN e da União Europeia, que têm sido pilares da ordem liberal no continente. "Se os EUA começarem a tratar a Rússia como um parceiro estratégico, isso pode minar a confiança dos aliados europeus e abrir espaço para uma maior influência russa na região", alerta John Smith, analista do European Council on Foreign Relations.


Além disso, a ascensão da China como potência global desafia ainda mais a ordem liberal. A rivalidade entre Washington e Pequim tem levado os EUA a buscar parcerias com outros atores, incluindo a Rússia, em uma tentativa de equilibrar o poder chinês. Essa dinâmica, no entanto, pode resultar em uma fragmentação do sistema internacional, onde alianças ad hoc e acordos bilaterais substituem as estruturas multilaterais que caracterizaram a ordem liberal.

Para alguns especialistas, o fim da ordem mundial liberal não é necessariamente uma má notícia.


 "A ordem liberal sempre foi uma construção ocidental, imposta ao resto do mundo", argumenta o professor de Ciência Política da Universidade de Columbia, Samuel Huntington. "Uma nova configuração, mais multipolar e menos centrada no Ocidente, pode refletir melhor as realidades do século XXI."


No entanto, outros temem que o declínio da ordem liberal possa levar a um mundo mais instável e conflituoso, onde normas internacionais e direitos humanos sejam sacrificados em nome de interesses geopolíticos. "A ordem liberal, com todos os seus defeitos, forneceu um quadro para a cooperação internacional e a resolução de conflitos", diz Anne-Marie Slaughter, ex-diretora de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado dos EUA. "Se ela desaparecer, o que virá em seu lugar pode ser muito mais caótico."

Enquanto isso, a reaproximação entre EUA e Rússia continua a evoluir, com implicações que podem moldar o futuro da política global. Se estamos testemunhando o fim da ordem mundial liberal ou apenas sua transformação, ainda é cedo para dizer. Mas uma coisa é certa: o mundo está em um momento de transição, e as decisões tomadas hoje terão repercussões profundas nas décadas vindouras.

Fonte BBC NEWS

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